E mais uma vez.
segunda-feira, 29 novembro, 2010
Estava vendo um filme na televisão quando peguei o telefone para te ligar, contar que era o nosso filme que estava passando. No instante que terminei de discar, desliguei e me lembrei da noite passada.
De tantas coisas que você poderia fazer, você fez logo a que não podia. Nos tínhamos um trato, lembra? Era bem simples esse trato, mas você tinha que descumpri, não é mesmo?
Mais uma vez acreditei em você e mais uma vez me decepcionei. Foram anos jogados fora, como se não importasse. Mas agora, tudo não passará disso, de um desperdício de anos, de amizade, de sonhos, de palavras, de amor. Agora precisamos seguir, sozinhas.
Não me liga, não insista.
Fique bem, fique feliz.
Um conto não terminado.
quinta-feira, 11 novembro, 2010
Olhando uns arquivos antigos, achei esse conto que escrevi em 2008 e nunca terminei.
“Maria olhou para o relógio, 4h37 da manhã. Não havia dormido direito, pensando na viagem que faria e da falta que sentia do corpo quente de Gabriela envolta do seu que costumava ocupar o outro lado da cama. Ainda deitada, voltou-se para janela e ficou a observar as janelas dos apartamentos a frente. A noite estava escura, a lua estava escondida atrás de uma nuvem; e a rua estava calma, não havia barulho dos carros passando. Um pequeno sorriso sem graça surgiu em seu rosto ao lembrar das vezes que ela e Gabriela olhavam por horas a cidade indo dormir. Ficavam sentadas na varanda fumando, criando histórias sobre os traseuntes que passavam. Havia 2 meses que não fazia aquilo; Gabriela estava em outro país. Balançou a cabeça para se desfazer desses pensamentos e, então, decidiu levantar. Caminhou até o banheiro enrolada em sua coberta. Deixou-a cair, suavemente, quando parou de frente ao espelho. Ficou ali por alguns minutos, analisando seu corpo nu. Não tinha reparado o quanto tinha emagrecido desde que Gabriela partirá. Imaginou o que Gabriela falaria se a visse assim: “Você está parecendo um esqueleto.. Esta horrível desse jeito. Trate de engorda rápido”. Deu uma risada silenciosa imaginando a cena. Entrou no chuveiro e deixou a água morna escorrer sobre seus ombros. Depois de lavar-se, ficou absorta em pensamentos, sentada no chão com a água batendo em seu rosto. As lágrimas se confundiam e se escondiam, mas a expressão em seu rosto de tristeza, não. De volta ao quarto, vestiu-se e fumou um cigarro na janela, vendo o sol nascer. Ainda não tinha arrumado as roupas para a viagem, pois não pretendia passar muito tempo fora. Quando abriu a pequena mala, achou um envelope com os dizeres ‘só leia quando for me visitar’. Ao reconhecer a letra da autora, uma incontrolável vontade de chorar tomou-lhe conta, e uma lágrima correu-lhe na face e caiu sobre a carta, manchando-a. Seu coração foi comprimido por uma grande angustia. A carta era breve, falava da expectativa e o desejo desse dia e o quanto amava Maria. Junto a carta, uma lista enorme do que deveria levar e os lugares que iriam visitar quando chegasse ao México. Dobrou e guardou-a em sua carteira. Não levou as roupas que Gabriela havia recomendado. Levou a mala até a porta de saída, deu a habitual duas voltas na fechadura para trancar a porta e foi para o trabalho. No caminho, passou pelo lago e recordou-se de quando pedirá Gabriela para morar juntas. Foi no dia em que fizeram 3 anos de namoro. Maria preparou um pequeno pic nic surpresa ao luar, no cais do lago. Toalha xadrez vermelha ao chão, um bom vinho tinto suave e dentro da sobremesa favorita de Gabriela, uma pequena chave. Quando Gabriela viu a chave, correspondeu com uma cara de espanto como se não entendesse e nem acreditasse. Maria percebeu e logo foi explicando que não precisava mudar agora, enquanto Gabriela pegava sua bolsa. Maria ficou tão desesperada.. Então, Gabriela tirou uma pequena caixa e abriu-a. Para espanto de Maria, eram dois pequenos anéis. Gabriela disse rindo que teve a idéia de pedi-la em casamento naquele dia. Maria sentiu uma grande nostalgia desse momento. Chegou ao trabalho e atravessou o enorme corredor de cubículos, cumprimentando seus colegas com um pequeno sorriso sem muito entusiasmo, até chegar ao seu. Evitou, ao máximo, sair dali. Passou o dia tentando desviar os pensamentos da viagem revisando arquivos. Não queria conversar com os colegas sobre o acontecimento, já estava ansiosa e angustiada por de mais. Olhava atentamente para o relógio de parede no final do corredor, esperando o horário de ir embora. Quando chegou a hora, pegou sua bolsa e atravessou o corredor em silêncio. Encontrou-se com o pai da Gabriela, senhor João, na casa dele as 18h20, como combinado. Partiram para o aeroporto em silêncio. Despediram-se com um breve abraço e um até logo. Dentro do avião Maria só pensava na hora que iria encontrar Gabriela e o que iria fazer. Chorou durante todo o vôo. Chegou ao México no dia seguinte bastante cansada, mas não quis passar no hotel antes e foi logo para a embaixada resolver algumas coisas.”
Existem certezas anteriores a razão.
segunda-feira, 8 novembro, 2010
Há aproximadamente três anos assistia na televisão em um programa de entrevistas parte de um monologo baseado na obra do Rabino Nilton Bonder e interpretado por Clarice Niskier: A Alma Imoral; ‘não imortal, nem amoral’.Ontem pude ver a peça completa; encantou-me.
O livro fala sobre os conceitos tradicionalmente impregnados em nós: corpo, alma, traição, tradição, certo e errado. Na peça, Clarice apresenta o monólogo falando que existem certezas anteriores a razão e que talvez nos perdêssemos e por isso pediu que não usássemos nosso raciocínio para compreender as histórias; apenas que nos deixássemos ser levados. E termina a explicação dizendo que pararia um momento para beber água e que se necessário for, a platéia poderia pedir para repetir um trecho que não compreendesse.
Começa, então, as interpretações de frases que pouco faziam sentido à primeira vista: “Aquele que não enxerga, não sabe o que não vê, porque quando sabe o que não vê, de alguma forma já está vendo. Já o que vê pensa que tudo o que vê é o que é. Mas quando sabe nem tudo o que vê é o que é, vê o que não é”. Essa é a primeira frase do monólogo, um jogo de palavras e idéias que logo me fez perder a segunda frase. E foi assim que continuei durante os noventa minutos de peça: perdendo a próxima frase tentando entender a anterior. Depois descobri que não era a única.
“As tradições trazem o poder das instruções do passado e as traições trazem o poder das instruções do futuro”. “O homem trai para resgatar a sua semente fora do aprisionamento quantitativo da monogamia. E a mulher trai para resgatar a sua semente fora do aprisionamento qualitativo da monogamia”. “A evolução da espécie está no silêncio do pai que ergue a faca para matar o filho por ordem divina, e a detém”. “Devemos ter cuidado, principalmente, ao saber quando o correto é o errado e o errado é o correto”.
Durante toda a peça ela brinca com uma capa preta, vestindo diversos tipos de roupas, desde um vestido sensual a uma burca. Clarice joga com o sagrado e o mundano. Nos instiga quando pergunta se devemos preservar o correto da tradição ou buscar o bom da traição. Ser sincero na traição ou ser um traidor ao se esconder na não traição, quando o que se queria, na verdade, era trair? E para provocar ainda mais o público, ela completava: “Não há tradição sem traição, assim como não há traição sem tradição”.
Clarice Niskier conseguiu penetrar o mais fundo da minha alma quando fala que as águas do mar vermelho não se abriram para que o povo hebreu passasse; um hebreu que não sabia nadar machar em direção a àgua e quando a água atinge o nível do nariz é que elas se abrem, porque D’us comovido com a confiança Nele depositada, então oferece passagem entre as aguas do mar. A filosofia de idéias que a peça transmite mudou e reacendeu aquilo que eu acreditava e acredito! E me fez transcender, seguir aquilo que queria e pensava. Saí feliz do teatro.
Quarta me apaixonei por um instante.
sexta-feira, 29 outubro, 2010
Nesse dia, criei coragem para falar com ela. Foi a primeira vez que ouvi sua voz; que voz doce e rouca. Perguntei se poderíamos fazer juntas o exercício de classe e ela respondeu “sim” com um sorriso escondido. Enquanto fazíamos o trabalho, nossas pernas se encontravam em momentos constrangedores; meu coração disparava e seu rosto branco tornava-se rosa. Discutimos nossas idéias da tarefa e ela escreveu a responda; não pude deixar de notar sua caligrafia arredondada. Terminamos o exercício e caminhamos juntas para o estacionamento, conversando pela primeira vez sobre trivialidades. Ela me contou que queria mudar de curso e eu disse o mesmo; rimos da nossa indecisão. Logo que chegamos, ela virou a esquerda e eu continuei reto. De longe, ela sorriu e nos despedimos com um breve aceno.